O desbotar do rouxinol

O desbotar do rouxinol

  • Grupo Conduzir admin
  • 4 de dezembro de 2021
  • Blog

Quem assiste os covers de David Sue não imaginam o quanto foi difícil gravar alguns deles. Lembro muito bem da primeira vez que surgiu um nó na garganta, uma vontade de sair voando para longe dos olhares da câmera de meu celular. O motivo? Bom… Eu não conseguia cantar a música do começo ao fim – talvez por ter sido totalmente modificada pelo meu professor para dar margem a uma interpretação mais pessoal e angustiada. 

No fim das contas, meu professor de canto (que sempre coordena minhas performances) deu a ideia de gravar os primeiros 3 minutos e gravar um novo take após o solo de guitarra… 

Deu certo! Eba! “Ei, porque você está cabisbaixo?” “Eu não consegui cantar a música do começo ao fim! Não tenho mais o direito de me considerar um cantor!” “Para com isso Matheus! Ficou bom!” “Eu forcei muito a garganta…” “Esquece isso, depois eu passo um exercício para acalmar suas pregas vocais… Escuta essa parte, parece The Doors” – nesse momento encarei meu professor com um sorriso tímido – “É… Pelo menos deu certo.” E como deu certo! 2.000 views! Ok, o David estava no auge de popularidade, mesmo assim! Pô, a performance tem 6 minutos! A maioria dos ouvintes de hoje já pegam no sono com 5 minutos de música! De qualquer forma o fato de eu ter esquecido de tomar meu remédio da tarde pode ter contribuído para essa melancolia toda. 

Não pense que parou por aí! Outra que me deixou borrando as calças foi Highway to Hell do AC DC. “Ah! Música modinha do caramba! Deve ser mamão com açúcar!” “Cara, isso é muito agudo! Maldito Bom Scott, eu subestimei você!” Levei umas 2 semanas para aprender essa tortura diabólica. Quando chegou o grande dia já podia sentir o gotejar de um líquido marrom – metaforicamente, claro. Para piorar o Fabiano falou logo de cara que tinha que ser de primeira pois essa era o tipo de música que se ficar fazendo 3,4,5,6 takes a voz iria desaparecer num piscar de olhos. Consegui, mas o microfone tremia tanto que na hora de renderizar meu mestre disse que parecia que eu tinha Parkinson!

Entretanto, a cereja do bolo foi Black Hole Sun, que iria ser uma homenagem ao Chris Cornell (que naquele período havia nos deixado há 4 anos). Que comece o checklist mental: “Decorou a letra?” “Sim!” “lembra da melodia?” “Opa!” “Sabe quando deve entrar?” “Eu me viro!” – estava tudo certo, o sucesso seria inevitável, take one sem sombra de dúvidas! PENSE DE NOVO! “Droga, esqueci a letra” Próximo! “Entrei na hora errada!” Próximo! “Por que está cantando assim?” “Assim como?” “Cara, você tá parecendo o cantor do Creed – não dá pra entender o que você tá cantando!” “Ok” – nesse ponto eu estava quase chorando, com um nó na garganta maior do que nunca “Eu sou um inútil! Ridículo! Cantorzinho de araque! Que vergonha de mim, cantando de forma agressiva só pra chamar atenção! Eu prometi para aquele fã que eu iria entregar essa merda de cover hoje, tem que ser HOJE!” – pensei cheio de euforia e uma tristeza que desmoronava até a muralha da China!

Nessa hora meu professor foi essencial – me acalmava, me ofereceu um copo d´água e até imprimiu a letra pra mim. Por fim, no take 14 deu tudo certo! Ufa! Acabou! Entrei no carro de minha mãe insatisfeito com o resultado “pior cover que fiz! Mas era o melhor que eu poderia fazer naquele estado” – depois de um tempo vi que ficou realmente bom! Fazer o que, um cantor exigente sempre se enxerga como um rouxinol desbotado! 

 

Matheus Cuelbas

 

 

*O Grupo Conduzir declara que os conceitos e posicionamentos emitidos nos textos publicados refletem a opinião dos autores.